14 de novembro de 2009

Respirávamos fundo:

Rodávamos tanto corríamos atrás de galinhas dançávamos feito loucos lambíamos manga subíamos nas árvores, pausa, subíamos até o fim mordíamos um pedaço das nuvens voávamos por lá e caíamos no chão, tronchos no chão de tanto rir. Foi aí que eu a conheci: usava vestido, olhos castanhos, cabelo castanho longo, tinha orelhas engraçadas, um rosto meio molhado de sol, pernas tortas, baixas, um jeito de falar com as mãos e tinha outras coisas que eu não podia ver. Ela era como eu, gostava de sonhos, sons leves profundos, gostava de Deus mas também de comer flores e pássaros. Passamos a descobrir uma coisa tão forte que pegávamos pincéis e coloríamos o mar, de amor. Depois nadávamos nele e nos tingíamos nas cores mais rápidas que flechas de luz. Vivíamos a cantar as formas... Às vezes me dizia tudo em pequenas palavras que fazia com que me perdesse por entre os becos da cidade. Às vezes me olhava e chorava por dentro que dava até pra sentir suas lágrimas deslizando no peito que batia forte e batia mais cada vez que me via a beira da morte. Quando deitados nús, numa maca, buscávamos ninguém naquele silêncio dos mortos, respirando dor e Ave Marias, cheias de graça... Juntos logo, logo estaríamos em paz. Seguimos sempre assim, eu, numa sintonia de vidas, uma após a outra.

10 de agosto de 2009

Aqui jaz o amor. Quando o relógio apontava doze horas já sentia o cheiro, o gosto, a falta de fome, a dor de cabeça, o ultimo suspiro das palavras frias, o fim. O fim era o começo de outro fim que estava por vir. Prefiro não saber. De grão e grana me falta tanto meu Deus. Talvez era preciso amar mais. Talvez não, era sempre um filho perdido, era sempre um amor plástico, bandido, que só servia para dizer que estava lá. E não existia. E eu ia contornando as coisas com as cores e as formas do amor. Saía loucamente inventando brigas, ciúmes, charmes, mentiras...Chorava e ria, chorava e ria numa agonia só. No final, o vinho... Não sei do vinho, esqueci. O pior é que no final, logo no final mesmo, o amor era verdade. Era estranho pensar assim, estranho, engraçado e confuso. Era preciso ter aguentado mais, só mais um pouco, feito os braços fortes da minha mãe: linda, linda, linda como o trovão. É preciso esperar a dor vir de novo e então entender tudo isso. Pagar para ver o que dizem nos livros e nos filmes de amor. È preciso estar renovando o que pia e grita aqui dentro, estar esperando sempre um outro. Porra, tudo besteira. Parei por aqui.

21 de julho de 2009

Maçãs

Comia todas elas, uma por uma.Mastigava o amor...
De minha parte, é só a parte que parte em dois.

Ana

O que pensava talvez não era nada. Podia calcular a dor que iria lhe causar dez anos depois. Existia assim um pressuposto de que não servia pra nada. Ana não sabia o que queria. Ana não esperava. A onda batia entre as pernas flácidas, e o vento levava seu cabelo embaraçado. A noite espalhava a dor de ser ela mesma. Não havia mais nada para contar . Nada para mudar. Já não havia fim nem pressuposto. Acabou o seu dia e a vontade do outro dia. Ganhara só a confusão do mundo e seus pesadelos. Enchia suas letras de ponto. Ponto, ponto...