14 de novembro de 2009

Respirávamos fundo:

Rodávamos tanto corríamos atrás de galinhas dançávamos feito loucos lambíamos manga subíamos nas árvores, pausa, subíamos até o fim mordíamos um pedaço das nuvens voávamos por lá e caíamos no chão, tronchos no chão de tanto rir. Foi aí que eu a conheci: usava vestido, olhos castanhos, cabelo castanho longo, tinha orelhas engraçadas, um rosto meio molhado de sol, pernas tortas, baixas, um jeito de falar com as mãos e tinha outras coisas que eu não podia ver. Ela era como eu, gostava de sonhos, sons leves profundos, gostava de Deus mas também de comer flores e pássaros. Passamos a descobrir uma coisa tão forte que pegávamos pincéis e coloríamos o mar, de amor. Depois nadávamos nele e nos tingíamos nas cores mais rápidas que flechas de luz. Vivíamos a cantar as formas... Às vezes me dizia tudo em pequenas palavras que fazia com que me perdesse por entre os becos da cidade. Às vezes me olhava e chorava por dentro que dava até pra sentir suas lágrimas deslizando no peito que batia forte e batia mais cada vez que me via a beira da morte. Quando deitados nús, numa maca, buscávamos ninguém naquele silêncio dos mortos, respirando dor e Ave Marias, cheias de graça... Juntos logo, logo estaríamos em paz. Seguimos sempre assim, eu, numa sintonia de vidas, uma após a outra.